Pastorais

DEUS ESTÁ OCULTO?

19/07/2020

É comum ouvirmos que as pessoas, muitas vezes, precisam passar por situações desesperadoras, de muito sofrimento e dor, para assim procurarem a Deus. É como se o sofrimento fosse uma condição sinequa non para o encontro com Deus. Mas será mesmo assim? Quem estabeleceu tal regra? Isso condiz com o que as Escrituras proclamam a respeito de Deus? É o que pretendemos abordar neste pequeno texto.

 

Se tempos de crise e sofrimento levam o ser humano para mais perto de Deus, então sairemos desta pandemia do coronavírus como pessoas mais espirituais, mais envolvidas com os valores do reino de Deus, mais solidárias e mais amorosas, tolerantes e irmanadas num projeto de vida comum a todos e todas. No entanto, há muitos sinais que apontam noutra direção: violência, corrupção, egoísmo, intolerância (inclusive religiosa),
desrespeito à vida e a todos e todas que lutam por ela. Parece que Deus está longe e abandonou o ser humano à sua própria sorte. Isso derruba a tese de que sofrimento leva o ser humano a Deus. Nem sempre isso acontece.


Mas não estamos à deriva. Deus não abandonou o seu povo, nem está longe dos que o invocam. Queremos colocar em foco três destaques, a partir dos textos bíblicos citados acima: 1) Deus está perto do ser humano; 2) por isso pode ser encontrado por ele; e 3) a busca deve partir do coração.


1. Deus está sempre perto. Há uma concepção teológica que enfatiza o aspecto do Deus abscontidus, ou seja, o Deus que está oculto, que não se revela, que não está visível, que se esconde do ser humano. É certo que o Deus revelado pela Bíblia não é visível, não pode ser conceituado pela nossa mente limitada, mas por outro lado, a mesma Bíblia o coloca como um Deus que está perto. Foi por isso que Jesus veio ao mundo como Filho de Deus, revelando esse Deus escondido, colocando-O junto de nós durante sua vida terrena, e, depois da sua ressurreição, continua conosco por meio do Espírito Santo. Invisível sim, mas longe não. Escondido, mas perto. “E eis que estou com vocês todos os dias até o fim
dos tempos”, nos afirma Jesus no evangelho de Mateus cap. 28 verso 20.


2. Deus pode ser encontrado. Ora, esse Deus escondido, que se revela por meio de seu Filho, Jesus, e por isso se torna um Deus sempre perto do ser humano, pode e deve ser encontrado por nós. Mas isso implica numa busca constante, pois só assim podemos saciar o profundo desejo da alma. É isso o que Agostinho de Hipona (Santo Agostinho) declara: “Nossa alma, ó Deus, foi feita para ti e não encontra descanso enquanto não repousa em ti.” Precisamos entender que a busca consome a nossa existência inteira. No é um movimento de massa, de encontrar milagres com hora marcada, num êxtase de multidões em torno de alguma personalidade famosa, seja lá quem for. Antes, é uma empreitada pessoal, onde experiências alheias são apenas referências nunca definitivas. A razão e o intelecto são mobilizados, mas a busca não se esgota pela lógica da filosofia.


O melhor exemplo é a luta simbólica de Jacó com Deus no Vale do Jaboque, conforme lemos em Gênesis 32.22-32. Ali é o momento da verdade e da transformação radical de Jacó. O nome do patriarca será mudado, bem como toda a sua vida jamais será a mesma. Ele sabe disso. Por isso sabe também que sua vitória só é possível se perder para Deus. E Jacó impõe e também suplica ao Senhor: “Não o deixarei ir se você não me abençoar.” Dessa luta Jacó sai abençoado com um nome novo, mas também marcado no seu corpo como diz o texto bíblico: “E mancava por causa da coxa.” Todo encontro com Deus deixa marca, que levamos para o resto da vida. Daí ser uma experiência tão pessoal e íntima.


3. A busca deve ser do coração. “Cega, a Ciência a inútil gleba lavra. / Louca, a Fé vive o sonho do seu culto. / Um novo Deus é só uma palavra. / Não procures nem creias: tudo é oculto.” Esta é uma estrofe do poema Natal de Fernando Pessoa. A atitude do eu poético é imobilista, paralisante, de quem parou de buscar, desistiu de crer. É a atitude de quem se desiludiu com a fé já que tudo é oculto. O antídoto para essa
maneira de viver é a palavra de Deus por intermédio do profeta Jeremias: “Vocês me buscarão e me acharão quando me buscarem de todo o coração.” A atitude correta é, portanto, a busca com o coração, pois isso significa que a busca de Deus se confunde com a busca por nós mesmos, ou seja, quanto mais conhecemos a Deus, mais nos tornamos iluminados no nosso entendimento e na compreensão do mundo. Deus se
torna o foco de que precisamos para uma perspectiva correta de tudo o que nos cerca e do nosso próprio ser interior.


A busca se dá pelo coração, porque é a partir dele que mergulhamos nessa aventura de fé. E fé é algo que ultrapassa os limites da razão, daí ser algo a ser experimentado no mais profundo do nosso ser, o que a Bíblia chama de coração. Nele encontramos uma nova perspectiva de vida, que nos é concedida pela graça de Deus, dom gratuito recebido pela fé. A nossa resposta a essa dádiva divina é o outro mergulho: o do amor, que
só pode partir do coração. Amor a Deus e amor ao próximo.


Assim, voltamos às questões iniciais do nosso texto. Não é o sofrimento que nos leva a Deus, é a nossa fé em resposta à graça que ele nos  propicia. E não se trata de um Deus oculto, mas revelado nas Escrituras, na palavra encarnada no Verbo divino, Jesus Cristo, que viveu, morreu e ressuscitou para trazer vida e vida eterna. Mais: o Espírito Santo atualiza a presença de Deus conosco, e torna possível o nosso encontro com
Ele marcando para sempre a nossa vida.


Busquemos, pois, o Senhor de todo o nosso coração. E seremos por Ele abençoados. Amém!


Rev. Vicente de Paulo Ferreira

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